domingo, 16 de junho de 2019

24 de maio de 2015

A cor dos olhos e o espanto filosófico

É muito importante para a postura filosófica a capacidade de se espantar com o mundo, como se a tudo percebesse pela primeira vez.

Um olhar que se espanta é um olhar que percebe algo diverso do olhar comum. É um olhar renovado, ou primeiro. Um olhar puro, ingênuo, despido das contaminações cotidianas, das influências mais próximas.

Pode ser o olhar de uma pessoa em estado alterado de consciência (e nessa medida podemos pensar de fenômenos que vão dos sonhos ao uso de drogas), de uma criança, o olhar do louco, do bêbado ou até mesmo a percepção que animais não-humanos teriam.

Não é gratuita a inspiração que o movimento romântico sempre teve em relação a tudo o que é olhar e forma marginal de existência. Daí seu elogio à marginalidade expressa no fazer artístico, no uso de drogas, na rebeldia, nas ações cotidianas de animais não-humanos e das crianças, enfim, no elogio de tudo o que é diferente e inusitado.

Hoje, mais uma vez, uma criança (com 7 anos de idade) teve um olhar surpreendente em relação aos olhos de minha filha:

"O olho dela é diferente" - a maioria das pessoas diz que os olhos dela são bonitos.

"É diferente como?" - perguntei, pois ela poderia estar falando de várias características possíveis, desde o tamanho até a forma dos olhos.

"A cor! É diferente."

"E que cor você acha que são os olhos dela?"

"Não sei."

E os adultos não hesitam em dizer: "Que lindos esses olhos azuis dela!"...
25 de fevereiro de 2015 

Duas crianças aqui no condomínio onde moro fizeram comentários engraçados (ou até um pouco tristes, talvez) sobre a cor dos olhos de minha filha:

- Eu tenho inveja dela - disse um menino de 8 anos de idade.
- Nossa, por quê?
- Porque ela tem o olho azul. Tomara que mude...

- Eu queria ser ela - disse o outro, de 6 anos de idade.
- Como assim? Por que você queria ser ela?
- Ah, eu queria ter o olho azul. Eu nunca tive olho azul...
12 de novembro de 2017 

Lições de anatomia:

- Pai, qual é o nome de onde sai o cocô?

- Bumbum.

- Não, pai, eu quero saber o nome de lá de dentro do bumbum, do buraquinho de onde sai o cocô...
27 de maio de 2017 

- Suas amiguinhas também tomam teté [mamam no peito], filha?

- Não.

- Como você sabe que não?

- Fulaninha e sicraninha falaram que só mamam na mamadeira.

- Você falou pra elas que toma teté?

- Não.

- Por que não falou, filha?

- Porque eu tenho vergonha. Eu sou diferente...
8 de novembro de 2016

A maiêutica é uma técnica fecunda, poderosa para a produção de conhecimento, e também muito divertida. Isso é facilmente observável na interação com crianças.

Ontem eu estava no parquinho do condomínio, com minha filha, e três crianças dialogavam como se fossem adultas: duas com 6 anos e outra com 9 anos de idade.

- Passou agora no Jornal Nacional: o Estado Islâmico invadiu duas cidades - dizia o menino de 6 anos.

- E quais cidades o Estado Islâmico invadiu? - perguntei.

- Invadiu duas cidades dos Estados Unidos.

- O que é o Estado Islâmico?

- Eles são terroristas!

- O que é terrorista?

- É gente que mata as pessoas.

Como fiz muitas, e outras perguntas além dessas poucas que transcrevo aqui, como se eu não soubesse absolutamente nada a respeito do que eles estavam conversando, o de 9 anos me indagou:

- Poxa, tio! Você não sabe nada!

Jogou um chinelo no chão e me perguntou o que era aquilo, e eu prontamente respondi que era um chinelo:

- Pô, pelo menos isso você sabe né, tio... Pelo amor de Deus!

- E por que o nome é Estado Islâmico? Se eles são terroristas e matam pessoas, o nome teria que ser Estado Matador, não?

Ficaram um tempo meio atônitos, sem conseguir me responder. O mais velho continuava intrigado com minha aparente ignorância:

- Poxa, tio, você faz cada pergunta...

Até que o menino de 6 anos teve um brilhante insight:

- É islâminico, tio, por causa de lâmina. Eles cortam as pessoas!
2 de agosto de 2015 

Aquele serzinho, que está há um ano e meio nesse mundo, fala uma ou outra palavrinha isolada, mas compreende um monte de coisas das quais você não tem a menor ideia de que ele seja capaz.

Estávamos uma vez, há mais de um mês, eu e minha filha, assistindo ao Tom e Jerry. Era a primeira vez que ela assistia a esse desenho. Um grande leão havia fugido do circo, e se abrigado na casa de Tom e Jerry, se tornando um grande amigo do rato. No final Jerry inclusive o auxilia a pegar um navio de volta à África, onde voltaria a ser livre.

Quando o navio está partindo, Jerry se despede, acenando com um lencinho na mão, em lágrimas. Minha filha aponta para a tela e chora junto, com um choro verdadeiro e sofrido, com lágrimas. Acho que essa foi a primeira produção cinematográfica que a embalou, a envolveu, com a qual ela se emocionou junto.

E ninguém havia explicado a ela que o leão estava indo embora, que aquilo era uma despedida. Claro, ela detesta despedidas. A palavra que não deve ser dita aqui em casa é “tchau”, principalmente se você estiver andando em direção à porta de saída. Mas ela foi capaz de generalizar os gestos para uma representação pictórica bem específica. Para isso muitas crianças da sua idade são capazes, e é exatamente disso que nós nos esquecemos.

Nunca calibramos muito bem. Civilizações antigas, crianças e animais não-humanos: quando pensamos nessas três categorias sempre tendemos a errar em nossas estimativas. Os antigos são sempre subestimados, e há até teorias conspiratórias a afirmar que não fizeram o que fizeram de grandioso – seria obra de extraterrestres. Crianças e animais que não amamos também são subestimados. Com amor na jogada a estimativa costuma se inverter.

E também, há poucos dias, a televisão estava ligada em algum noticiário esportivo. Ao observar a cena de um jogador fazendo um gol, levantando os braços e comemorando, ela também levantou os braços, saiu comemorando e, para botar uma cereja no bolo, gritando gol. E olha que aqui em casa ninguém comemora gol, ninguém se liga muito em futebol pela televisão, pois sempre preferi jogar a assistir.

Isso tudo é muito divertido...
3 de dezembro de 2017 

Minha filha está com uma percepção muito aguda das mais variadas expressões impróprias, para crianças, as quais costumo proferir, quando estou indignado:

- Papai, você falou um palavrão. Não pode...

Tenho ouvido isso várias vezes ao dia. Estou achando melhor respirar fundo primeiro antes de expressar qualquer tipo de indignação. Ainda bem que não sou chegado em ficar torcendo pra time de futebol...