quinta-feira, 30 de abril de 2020

Dona Maria

Conversa profunda, metafísica, aqui com minha filha, de 6 anos, hoje à tarde. E assim (depois das origens do Homo sapiens, de passarmos pelos dinossauros e a origem da vida) chegamos ao Big Bang.

- Mas, papai, e a Dona Maria.


Por alguns segundos fiquei pensando em qual seria a relação profunda do início do universo, do início de tudo, com a Dona Maria ou o seu Zé da esquina.


- Que Dona Maria, minha filha?


- A Dona Maria, mãe do Jesus. Se ela é a mãe de Deus, deve tá aí antes do Big Bang, uai...

sábado, 7 de março de 2020

A história da vida privada dos monarcas e a ética da reciprocidade.

Aula de hoje: história da vida privada dos monarcas e ética da reciprocidade.

Luisa chorava, se sentindo pressionada, porque a mãe lhe disse que estava na hora de tomar banho sozinha e outras coisinhas mais.

- Filha, você quer viver pra sempre como um reizinho?

- Como assim, papai?

- Reizinhos é que não fazem nada sozinhos. Até para limpar o bumbum tem alguém que vai lá e limpa o bumbum do cara.

Como estávamos no banheiro, sentei no vaso, imitei um reizinho fazendo cocô e chamando um servo para limpá-lo, o servo chegando e fazendo serviço.

O choro se transformou em risadas, com o rostinho cheio de lágrimas.

- E daqui a pouco eu vou fazer cocô, viu, filha. Espera aqui no banheiro. Não sai, não, que eu quero que você limpe meu bumbum.

- Ai, credo, papai...

- Uai, a gente não limpa seu bumbum todos os dias. Você também vai ter de limpar o nosso. Que tal?

Ficou bem esperta. Está um pouco alegremente horrorizada, porque sempre ri, bastante, quando menciono a possibilidade de reciprocidade. Hoje pela primeira vez aceitou, com bom humor, com tranquilidade, que daqui pra frente tomará banho sozinha.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Ela quer um irmãozinho

Saindo com ela, da escola, olho pelo retrovisor e vejo um biquinho:

- O que foi, minha filha? Por que você tá com esse biquinho?

Desabou a chorar.

- Tô pensando no meu irmãozinho, que não tenho. Eu ainda quero muito ter um irmãozinho, papai...

- Vamos então combinar uma coisinha, minha filha? Se você se acalmar, se você parar de chorar, o papai vai comprar um chocolatinho pra você...

Fiquei por um tempinho abraçado com ela. Até que seu choro pelo menos ficasse um pouquinho mais calmo.

Tínhamos de parar no caminho. Havia algumas compras a serem feitas, em farmácia e supermercado. Alguns minutos depois:

- Papai, eu já não tô chorando mais. Eu já tô bem calminha. Você poderia me comprar o chocolatinho?

Então comprei-lhe um chocolatinho pequenino, bem bobinho, com 70% de cacau, que ela comeu saboreando cada pedacinho, e depois lambendo os beiços.

Depois fizemos mais algumas compras, e vi que havia, na prateleira da farmácia, um chiclete daqueles grandes e bonitos, sem açúcar. Ela olhava para eles de modo fixo, sedenta para experimentar aquilo.

- Isso é chiclete de rico, minha filha. Olha só como esse chiclete é caro. Você quer experimentar?

Compramos o chicletinho, e ela veio saboreando-o no carro. Olhei pelo retrovisor. A carinha era de alegria. Olhava para mim sorrindo, e disse:

- Muito, muito, muito obrigado mesmo, papai! Você não tem ideia do tamanho do obrigado que eu tenho pra te dar...

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

18 de fevereiro de 2020

Minha mãe tem a língua muito afiada. É horrível. O saldo é de muita gente ferida, irreversivelmente. Sozinha num estádio, com um microfone na mão, teria a capacidade pra fazer a torcida inteira do Flamengo ir embora, chorando. Minha filha infelizmente, por vezes, demonstra capacidade semelhante. Hoje, na hora do almoço:

- Mamãe, essa comida tá com gosto de ração de cachorro, misturada com xixi.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

17 de fevereiro de 2020

Hoje de manhã Luisa pediu para assistir ao novo filme dos Smurfs. Uns 30 minutos depois entrou no quarto, onde estava a mãe, com uma cara horrível, os olhos marejados e os lábios tremendo, em nítido esforço para conter o choro. Lilian a abraçou.

- O que aconteceu, minha filha?

E o abraço, com a pergunta, foi o suficiente para ela desabar no choro e exclamar:

- Mãe, que filme triste... Ai, que filme triste! O Gargamel é muito mal.

Eu estava no trabalho. Lilian assim me escreveu: “Só pude ficar abraçando mesmo... Primeira vez que vejo alguém chorar por conta do Gargamel. Depois eu pedi para ela me explicar a parte que a fez chorar e, junto comigo, ela se acalmou."

domingo, 16 de fevereiro de 2020

15 de janeiro de 2020

Minha filha chegou em casa cantando uma musiquinha cristã que aprendeu na escola:

"Forte e corajoso como Sansão / Amigo de Deus como Abraão / Muito inteligente como Seu Lobão..."

Opa... "Seu Lobão"? Como assim?

Depois fui ver. Ela entendeu que seria Seu Lobão, mas na verdade é Salomão.

domingo, 16 de junho de 2019

24 de maio de 2015

A cor dos olhos e o espanto filosófico

É muito importante para a postura filosófica a capacidade de se espantar com o mundo, como se a tudo percebesse pela primeira vez.

Um olhar que se espanta é um olhar que percebe algo diverso do olhar comum. É um olhar renovado, ou primeiro. Um olhar puro, ingênuo, despido das contaminações cotidianas, das influências mais próximas.

Pode ser o olhar de uma pessoa em estado alterado de consciência (e nessa medida podemos pensar de fenômenos que vão dos sonhos ao uso de drogas), de uma criança, o olhar do louco, do bêbado ou até mesmo a percepção que animais não-humanos teriam.

Não é gratuita a inspiração que o movimento romântico sempre teve em relação a tudo o que é olhar e forma marginal de existência. Daí seu elogio à marginalidade expressa no fazer artístico, no uso de drogas, na rebeldia, nas ações cotidianas de animais não-humanos e das crianças, enfim, no elogio de tudo o que é diferente e inusitado.

Hoje, mais uma vez, uma criança (com 7 anos de idade) teve um olhar surpreendente em relação aos olhos de minha filha:

"O olho dela é diferente" - a maioria das pessoas diz que os olhos dela são bonitos.

"É diferente como?" - perguntei, pois ela poderia estar falando de várias características possíveis, desde o tamanho até a forma dos olhos.

"A cor! É diferente."

"E que cor você acha que são os olhos dela?"

"Não sei."

E os adultos não hesitam em dizer: "Que lindos esses olhos azuis dela!"...